Convento de Santa Clara do Desterro. Salvador, BA
Convento de Santa Clara do Desterro. Salvador, BA
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Convento e Igreja de Nossa Senhora do Desterro;
É uma ordem religiosa feminina, fundada em 1212 por São Francisco de Assis e Santa Clara de Assis.
A segunda das Três Ordens Franciscanas - dedicando-se especialmente à vida contemplativa orante e em regime de clausura.
No mundo, são aproximadamente 20 mil Irmãs Clarissas, ou Irmãs Pobres de Santa Clara, como são conhecidas, que vivem em cerca de mil Mosteiros espalhados pelos 5 Continentes, observando o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em castidade, obediência e sem nada de próprio.
As Clarissas foram as primeiras Religiosas a se estabelecerem no Brasil, solicitadas pela Câmara, nobreza e povo da Bahia.
Aos 09 de março de 1677, chegaram de Èvora (Portugal) as quatro monjas fundadoras do Imperial Convento de Santa do Desterro (Bahia).
O convento do Desterro originou-se de uma antiga capelinha De Nossa Senhora do Desterro, cuja fé na Santa o povo tinha
Erguida no ano mil quinhentos e sessenta, feita com tábuas
Seu chão era de terra batida! E seu teto coberto de palmas.
Sete anos depois, a Capelinha foi reconstruída e ampliada
Com pedra e cal, no mesmo lugar aí se fundou uma confraria
Onde celebrava-se as festas religiosas!
E todos comparecia Com o passar dos anos, essa Capela ficou pequena e apertada.
No ano mil seiscentos e vinte e sete, ela foi novamente
Ampliada e os trabalhos de doutrinação, eram vagarosamente
Executadas, havendo necessidade urgente de serem ordenadas
Novas religiosas, passados cinquenta anos! Foram enviadas.
Ao Convento de Santa Clara de Évora, lá na nação portuguesa
Quatro freiras e duas servas! Liderada pela Sóror Abadessa
Margarida da Coluna! Essa freira realizou com amor e dedicação
Durante nove anos, um trabalho belo, maravilhoso de pregação
No Convento do Desterro, totalizou-se vinte e nove vocações
E no ano de mil seiscentos e oitenta e seis, foram embora
Essas freiras voltando ao Convento de Santa Clara de Évora
Descrição:
Iniciado em 1681, em local onde havia uma pequena igreja e o Hospício do Desterro, então com 05 ou 06 celas, é o primeiro convento de freiras do país.
O convento das Clarissas desenvolve-se em torno de dois claustros, inserindo-se a igreja num dos seus lados.
A composição arquitetônica é realçada pela torre da primeira metade do séc. XVIII, com terminação bulbosa, situada no corpo que divide os claustros e ainda, pelo mirante - elemento comum nos conventos de religiosas - que aí é empregado pela primeira vez na Bahia.
A igreja, inserida volumetricamente no retângulo da composição, possui nave única, capela-mor, "coro baixo" e "coro alto" e acesso lateral, com decoração neoclássica, fruto das reformas do século XIX.
No primeiro andar do convento, encontra-se a capela do Santíssimo Crucifixo dos Passos, com altar e retábulos oitocentistas.
O convento possui grande quantidade de alfaias, objetos de prata e mobiliário dos séculos XVIII e XIX.
Artigo / Conventos femininos - O Desterro da Bahia
*Anna Amélia Vieira Nascimento é historiadora e diretora do Arquivo Público do Estado da Bahia
Os mosteiros de religiosas e os recolhimentos de mulheres eram instituições incluídas no âmbito da organização social do mundo luso e de suas colônias.
O ideal de toda mulher, no entendimento amplo da sociedade baiana e brasileira, era: "tomar estado".
Desses, os principais: o laço do matrimônio ou serem religiosos.
Ainda existiam outras modalidades como: serem servas e recolhidas em conventos e recolhimentos e procurar serem dignas de receber um dote a fim de construir um lar em medianos espaços sociais.
Diversas irmandades recebiam doações de irmãos falecidos que haviam testado para distribuir às donzelas brancas, virgens e de bom comportamento um pequeno dote, que lhes possibilitava tomar estado.
O primeiro convento de religiosas do Brasil e da América Latina foi o do Desterro na Bahia.
Antes dele, as moças das melhores famílias do Brasil dirigiam-se aos conventos do reino, em Portugal, onde se recolhiam pela vontade de seus pais.
Mas os perigos do mar, tanto os naufrágios como os raptos pelos piratas infiéis, obrigaram o Conselho Ultramarino a ceder ao pedido dos baianos e permitir a criação do primeiro convento de freiras do Brasil.
Corria o ano de 1677, quando freiras portuguesas desembarcaram do navio que as trouxera de Évora, via Lisboa, para iniciar as donzelas brasileiras na difícil arte de ser freira.
O primeiro convento de religiosas, o Convento do Desterro, foi fundado no século XVII, e só no século XVIII outros foram criados com o mesmo fim, como o da Conceição da Lapa, o de N. Sra. das Mercês, o da Soledade e os recolhimentos da Santa Casa de Misericórdia e o de São Raimundo Nonato.
De todos, o mais importante pelo número de religiosos, pela riqueza dos seus dotes e objetos variados de luxo que as acompanhavam, além de escravas, era o do Desterro, que foi tema de intensas reclamações dos arcebispos da Bahia, causando preocupações nos antigos tempos.
Reis e arcebispos pretendiam regular melhor o comportamento das religiosas e a vida espiritual das freiras brasileiras, tão influenciadas pela sociedade dos séculos XVII e XVIII.
As espessas paredes do Mosteiro de Santa Clara do Desterro, no auge de sua existência, guardavam cerca de 500 mulheres.
Constava esta multidão de religiosas professas de véu preto, as de véu branco, noviças, recolhidas, educandas, servas da comunidade e servas particulares, além de escravas particulares e da comunidade.
Como muitas religiosas não haviam se recolhido ao convento por vocação, mas para satisfazer à vontade dos seus pais, e como ali existiam simultaneamente recolhidas e educandas, servas e escravas que não haviam pronunciado votos perpétuos, existia no convento a severidade da religião rigorosa dos tempos medievais e, ao seu lado, um certo ambiente profano, quando se percebiam a riqueza dos trajes, das jóias, do adorno das celas, assim como na prática da música e as danças senhoriais e populares, que mal escondiam as rudes maneiras que somente o tempo abrandaria.
Aos poucos, as extravagâncias de comportamento das freiras, observadas então pelo viajante francês La Barbinas, foram se tornando mais de acordo com os sentimentos religiosos.
As perucas, os sapatos de salto alto, abertos para se perceber a meia de seda cor de pérola, os grandes véus de tafetá e os vestidos de cauda que usavam nos dias de gala, quando se dispunham a comparecer ao "coro de cima" da igreja, às solenidades religiosas, até mesmo as cores que espalhavam pelos lábios e pelo rosto foram desaparecendo, dando lugar aos hábitos e aos véus fechados.
Naquele convento estavam as mulheres mais destacadas da colônia, mesmo vivendo trancadas e enclausuradas.
Aqueles que ali entravam para realizar pequenos reparos, ou para tratar as religiosas e suas companheiras, como os médicos, as encontravam com largas roupas de finos tecidos bordados e lavrados e os cabelos anelados, como era costume na época.
Também usavam jóias, brincos e anéis de pedras e longas correntes de ouro.
Nem sempre respeitavam as reprimendas das abadessas e dos arcebispos; cujos depoimentos, aliás, transmitiram o gênero de vida das religiosas.
A madre Catarina dos Anjos, que havia sido abadessa, não freqüentava absolutamente as solenidades religiosas, no determinado dia da Páscoa, que deveria oficiar por ter sido abadessa.
Isto era apenas um exemplo.
As famílias mais importantes da Bahia, por serem de elite ou endinheiradas, tinham representação neste antigo convento do século XVII.
Eram da cidade do Salvador, de outras províncias e mesmo de Angola, de onde veio uma religiosa destacada.
Seus sobrenomes eram os mais importantes do tempo colonial:
Corrêa de Sá, Aguiar Villas Boas, Vasconcelos Albuquerque, Araújo Góes, Oliveira Porto, Paes Florião, Brito Correa, Couros Carneiro, Cavalcanti de Albuquerque, Calmon de Almeida, Gonçalves de Almeida, Guissenrode, Gonçalves Viana, Siqueira Villas Boas, Costa Almeida, Machado Velho, Sodré Pereira, Mirales, Carvalho e Albuquerque, Costa Bulcão, Gomes Loures, Argolo, Borges de Barros, Pina e Melo, Calmon de Siqueira e Aragão, Bittencourt entre outros.
Escolhidas para se recolherem à vida religiosa, vinham de engenhos em cavalgadas acompanhadas das famílias e grandes baús de couro com os enxovais de peças bordadas e lavradas.
Traziam louças de Macau e da China, pratas e porcelanas, móveis de estilo, viviam em celas de tetos pintados, para amenizar uma vida que deveria ser de rigores.
Mas as jovens recolhidas encontravam caminhos de afastamento da severidade da religião e passavam à prática de amenidades, abrangendo o solfejo e o dedilhar de instrumentos de corda, violas e violinos, além de piano e harpa.
Um mundo de contrastes sociais existia no Convento do Desterro, que em alguns períodos assemelhou-se mais a uma associação de mulheres influentes e por vezes poderosas.
Não era sem razão ou motivo que o Convento do Desterro realizava grandes operações de crédito, financiando mercadores e até mesmo senhores de engenho, contribuindo para fortalecer as estruturas rurais da colônia e da província.
Glória do pecado
Se na sua origem a religião cristã viu florescer ordens mendicantes por toda a Europa, com o decorrer dos séculos o poder econômico da Igreja cresceu de tal forma que chegou a influenciar politicamente o destino das nações.
Na Idade Média, a atuação dos mosteiros foi fundamental para sustentar a economia rural e em 1128, a Ordem dos Templários já financiava reis e cruzadas.
Na Bahia, capital da colônia portuguesa, cujo principal produto de exportação no período era o açúcar, os nomes dos senhores de engenho encabeçavam as listas de créditos e débitos das franciscanas clarissas e de outros mosteiros da cidade, a exemplo do Convento de Santa Tereza, das carmelitas descalças.
O Convento do Desterro foi construído por membros da elite baiana para salvaguardar suas filhas dos perigos do mundo.
Ao entrar para o mosteiro, as noviças tinham um dote, que posto a render juros através de empréstimos a fazendeiros, comerciantes e outros representantes dessa elite, garantia tanto o enriquecimento do convento, quanto a manutenção da economia açucareira, sujeita aos altos e baixos do mercado e a competição com o produto das colônias holandesas.
Dos conventos femininos existentes no século XVIII, Desterro, Lapa, Nossa Senhora das Mercês e Soledade (os dois últimos pertencentes à União Romana da Ordem de Santa Úrsula - as ursulinas, que se estabeleceram em Salvador no ano de 1735), o único que não emprestava dinheiro a juros era o da Lapa.
Nas outras congregações de enclausuradas a agiotagem era uma das únicas maneiras de conseguir rendas estando do lado de dentro dos muros.
As transações entre as freiras com seus clientes se davam por cartas, conversas no locutório e muito raramente, através procuradores, estando sempre as madres cientes de tudo o que dizia respeito às suas finanças.
As ordens masculinas e as congregações de religiosas possuíam entre os séculos XVII e XVIII um vasto patrimônio composto por imóveis de aluguel, fazendas produtoras, criações de animais, engenhos, compra e venda de escravos, terrenos e capital empregado nos empréstimos a juros.
O faturamento anual dos mosteiros era de dezenas de contos de réis e a independência financeira de muitos deles garantia o respeito das camadas mais poderosas da sociedade.
Mesmo assim, a opulência dos conventos não impediu que, a partir da segunda metade do século XIX, a decadência atingisse as congregações religiosas, muito mais as femininas, que se viram cada vez com menos liberdade de ação até para administrar o próprio patrimônio.
Capitalismo e discriminação
Para as jovens negras ou pardas, e pobres, da Bahia colonial, entrar nos conventos de religiosas de Salvador era impossível.
As filhas de famílias brancas com pouca ou nenhuma expressão ou mesmo as descendentes de famílias judaicas, os chamados cristãos-novos recém-convertidos por ordem e graça das torturas do Santo Ofício, poderiam até entrar para a vida monástica mediante o pagamento do dote, o que no entanto não garantia que elas ascendessem dentro da hierarquia dos conventos.
No Desterro, o poder econômico das famílias assegurava uma vaga no cobiçado lugar de véu preto, entre as madres que tinham direito de voto nas eleições para abadessa e mantinham privilégios dentro da organização social do mosteiro, que em linhas gerais reproduzia a organização social da época, baseada no racismo e na exploração da mão-de-obra escrava.
Na época da clausura forçada, enquanto as jovens brancas e ricas eram conduzidas contra a vontade para a vida religiosa num dos quatro conventos femininos existentes na cidade, as jovens pobres ou de cor que realmente gostariam de consagrar suas vidas a Deus não encontravam onde professar sua fé.
Em 1797, tentando mudar a situação, Ana Joaquina do Coração de Jesus, parda que havia sido educada pelas clarissas, enviou correspondência à rainha de Portugal, D. Maria I, pedindo que fosse construído um convento onde só pudessem ser admitidas donzelas pardas, afirmando até existirem benfeitores interessados em colaborar.
Nem ela nem os benfeitores foram atendidos, numa demonstração de que a coroa tinha interesse na manutenção da segregação de classes.
Apesar do interesse majoritariamente financeiro, no próprio Desterro houve uma exceção à regra com uma das servas do convento conquistando lugar de véu preto em 1744, "em reconhecimento ao seu nobre e verdadeiro desejo de servir à causa do Altíssimo".
Doce riqueza
O comércio de doces, sequilhos e biscoitinhos fabricados pelas religiosas serve para manter as obras sociais a que muitas congregações se dedicam, a exemplo das franciscanas do Sagrado Coração de Jesus, no Desterro, ou as irmãs do Bom Pastor de Angers, em Brotas.
Mas a doçura dessas guloseimas no passado foi fonte de riqueza das madres clarissas, havendo entre elas uma freira, Catarina do Monte Sinai, que se destacou construindo uma verdadeira fortuna, primeiro vendendo doces e depois aplicando o que ganhava com o comércio em empréstimos a juros.
O comportamento das clarissas é analisado pela historiadora Anna Amélia Vieira Nascimento como paradoxal:
"Ambigüidade misteriosa o procedimento dessas freiras, práticas antes que místicas, vaidosas antes que devotas. E aproveitadoras do trabalho escravo, embora recolhidas e consagradas à Santa Clara".
As antigas madres do Desterro, irreverentes a ponto de usar perucas, decotes e não comparecerem ao coro na hora das orações, mesmo pertencendo a uma congregação franciscana, envolviam-se diariamente com práticas mercantis.
Boa parte das que enriqueceram vendendo doces ou prestando serviços através de seus escravos era integrada por filhas de prósperos comerciantes da colônia e não precisava necessariamente de dinheiro, envolvendo-se com tábuas de calcular e livros de notas pelo apego ao mundo além dos seus muros cinzentos.
Bastidores da reclusão
Por trás dos muros cinzentos, há histórias de salvação, pecado e glória.
Ao longo dos séculos, os conventos abrigavam não apenas moças impelidas por uma vocação.
Eram neles que ficavam, por exemplo, as jovens de "conduta errada", viúvas e até mulheres espancadas pelos maridos que aguardavam o direito à separação.
Hoje, 2000 anos depois de Cristo, os ecos de um tempo em que a autoridade patriarcal era fator determinante, maior do que a fé, na hora de enviar as jovens ao convento ainda podem ser ouvidos nas histórias contadas pelas próprias religiosas sobre os mosteiros de Salvador.
Dentro daqueles pequenos mundos, onde conviviam centenas de mulheres, entre freiras, recolhidas e servas, havia aquelas que foram enclausuradas à força porque seus pais julgavam ser o lugar ideal para manter a donzela longe das tentações.
Havia as que abraçavam os votos de pobreza, caridade e obediência da vida monástica por convicção, mas muitas lá permaneciam por falta de opção.
Naquela época, quando o Brasil e a Bahia tinham menos de 200 anos de colonização e Salvador pouco mais de um século, um espaço erguido fora dos muros da cidade colonial foi o primeiro mosteiro de mulheres da América.
Era o Convento do Desterro, no bairro de Nazaré, construído depois de centenas de pedidos de pais e arcebispos da capital da província, interessados em ter onde abrigar as jovens donzelas de então.
Uma vez encerradas dentro do convento e afastadas do mundo e de suas paixões inferiores, as mulheres jamais de lá sairiam, nem depois de mortas – elas eram enterradas do lado de dentro das muralhas.
Mesmo as moças que não eram conduzidas à vida religiosa permaneciam recolhidas dentro de casa, afastadas de todos os olhares.
Na colônia portuguesa dos anos de 1600, vigorava o costume herdado dos mouros de ver sem ser vista.
Quando saíam à rua, quase exclusivamente para ir à igreja, as mulheres, além de estarem vestidas dos pés à cabeça, eram carregadas em cadeirinhas fechadas por véus, que atiçavam a curiosidade dos passantes.
Sem os rigores de antigamente ou as autoflagelações, ainda hoje, às vésperas do novo milênio, jovens se consagram à vida religiosa e assumem a responsabilidade de viver em oração.
As congregações de enclausuradas, chamadas contemplativas, sobreviveram aos séculos e às perseguições impostas principalmente pela sociedade machista e o medo que os homens sempre nutriram pelo chamado fruto do pecado.
Dentro desse isolamento aparente, escondem-se belas mulheres, de até 20 anos, não mais por obrigação.
Longe dos tempos em que iam para os conventos em obediência ao patriarca, elas garantem que envergam o hábito unicamente para "cumprir uma missão".
Diferentemente do objetivo inicial de enclausurar mulheres, os conventos se transformaram em pólos de trabalhos no campo da ação social.
Hoje, depois dos 323 anos da fundação do Desterro, esses espaços continuam sendo alvo de especulação.
As freiras, mulheres que abrem mão da maternidade e da vida considerada convencional, ainda são encaradas como um mistério para boa parte da população.
Afinal, pouca gente consegue entender o que faz uma jovem recém-saída da adolescência a viver numa clausura ou no trabalho social de um mosteiro somente por opção.
Mistérios do convento
Santidade e profanação
Andreia Santana
Santidade e profanação.
A história dos conventos da Bahia se fez assim.
Na época da construção do Santa Clara do Desterro, o primeiro das Américas erguido em Salvador, no bairro de Nazaré, os mosteiros femininos surgiram como uma espécie de abrigo para donzelas, viúvas ou mulheres ''enjeitadas'', de ''vida errada''.
Mosteiro de mulher
Convento não é lugar só de freiras.
Viúvas ricas, moças "de conduta errada", mulheres vítimas da violência dos maridos e até esposas adúlteras já fizeram parte da população dos mosteiros do século XVIII.
Foi assim no Convento do Desterro, no bairro de Nazaré, em Salvador, cuja Congregação Franciscana das Filhas de Santa Clara chegou a contar com mais de 70 religiosas.
Além delas, viviam na clausura escravas, educandas e recolhidas.
Em certas ocasiões, a população do Desterro chegava a mais de 200 pessoas, incluindo filhas e servas das viúvas ricas e as esposas humilhadas pelos maridos que aguardavam a sentença de separação.
A última freira clarissa, madre Margarida do Sagrado Coração, morreu no Desterro, em 1915, extinguindo a congregação das clarrissas na Bahia.
Em 1907 restavam apenas três delas, mas a extinção da congregação já era sentida pela abadessa madre Leonor Querubina de Santa Efigênia 50 anos antes.
Naquele ano, o Convento do Desterro, junto com todo o seu patrimônio, foi transferido para outra congregação filha de São Francisco, a das Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus.
Por ordem do então arcebispo Dom Gerônimo Tomé da Silva, as seis religiosas da nova congregação, que chegaram à Bahia em 1900 e mantinham um orfanato desde 1901, se mudaram do Areal de Cima para o convento em Nazaré levando consigo as 45 órfãs sob seus cuidados.
As remanescentes da congregação fundadora adquiriram o direito de permanecer morando na maior parte do convento até a morte da última delas, quando então as novas madres tomariam posse de todo prédio definitivamente.
Capela histórica
Da imponência das clarissas, consideradas as mulheres mais interessantes da província pela historiadora Anna Amélia Vieira Nascimento, autora do livro Patriarcado e religião - As enclausuradas clarissas do Convento do Desterro da Bahia, resta na capela do convento dedicada à santa padroeira um belíssimo sacrário português em estilo barroco, além de algumas imagens e objetos que remontam à origem do mosteiro.
Responsável atual pela manutenção de toda essa história centenária, a madre Jesumina acalenta o projeto de criar dentro do Desterro um museu que contará tanto a história das clarissas, quanto a de sua congregação, que ainda hoje mantém um semi-internato responsável pela educação de 21 crianças carentes.
Outro desejo da madre e das outras 13 irmãs que moram no convento é a restauração da igreja de Santa Clara, que mistura os estilos barroco e clássico em imagens e pinturas, que já sofrem a degradação resultante da ação do tempo.
Recentemente a única intervenção pela qual o mosteiro tricentenário, tombado pelo Patrimônio Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1984, passou foi a reforma da instalação elétrica através de recursos do Fazcultura.
Vasculhando documentos antigos, madre Jesumina, que já tem 31 anos de vida religiosa, busca remontar a história da chegada das franciscanas do Sagrado Coração de Jesus ao Desterro, em 26 de outubro de 1907, e a origem do orfanato, ainda no Areal de Cima, que em setembro do ano que vem completa um século.
Emocionada, ela relê a ata de 93 anos atrás, em cujo papel amarelado está escrito em letras rebuscadas a oficialização da posse.
"Meu objetivo é criar um jornalzinho comemorativo do centenário do orfanato e remontar a nossa chegada à cidade", diz.
As celebrações pelo ano centenário iniciaram-se no último dia 27 de agosto, durante a Festa de Santa Clara, que reuniu toda a comunidade local dentro do convento, o que era proibido há dois séculos.
No tempo das clarissas, as procissões e festas de santos, apesar de pomposas e dos lautos banquetes, aconteciam dentro das muralhas e tinham como participantes apenas os habitantes do seu microcosmo.
Interesses econômicos
Mais do que a preocupação com a orientação religiosa de suas filhas donzelas, os pais abastados da colônia tinham interesses financeiros em jogo na hora de decidir enviá-las ao convento.
"Era mais barato mandar uma jovem ser freira do que pagar o dote para o casamento.
O dote de uma religiosa, que tinha como um dos seus princípios o voto de pobreza, era muito menor do que o das casadoiras, além disso, os pais davam preferência aos filhos varões na hora de dividir a herança", explica Anna Amélia Vieira Nascimento.
Interessados em dar "estado" de religiosas às filhas, os senhores de engenho da colônia enviaram o primeiro pedido de implantanção de um convento feminino em Salvador no ano de 1646.
A princípio o rei de Portugal resistiu à idéia porque achava que o Brasil, um país em colonização, precisava de jovens de boa família (leia-se brancas) para o casamento.
A coroa também achava que a religião adotada no país recém-conquistado devia ter caráter evangelizador ao invés de limitar-se a orações e súplicas no interior dos mosteiros.
Outra preocupação era com a decadência dos costumes nos conventos de Portugal, o que dificultava o envio de freiras à província para cuidar da educação religiosa das donzelas baianas.
As famílias insistiram usando o argumento de que, diante da falta de candidatos a marido que estivessem à altura das jovens, os pais muito se preocupavam com o destino de suas filhas.
Além disso, o governo da província, através de um sem número de ofícios, mostrava ao rei as vantagens financeiras da construção de um mosteiro feminino, cujos bens acumulados com o pagamento dos dotes das religiosas ajudariam em muito ao enriquecimento da própria colônia e, conseqüentemente, da coroa.
As listas de doações para a construção do Convento do Desterro começaram a correr ainda em 1644, antes mesmo de ser enviado o pedido para edificação do mosteiro.
Finalmente quatro madres do Convento de Évora,
Margarida da Coluna,
Jerônima do Presépio,
Luisa de São José e
Maria de São Raimundo,
foram recrutadas para iniciar uma nova "casa de Deus".
Em Patriarcado e religião, Anna Amélia descreve a expectativa das quatro irmãs portuguesas e as dificuldades que elas enfrentaram desde que chegaram em Salvador no ano de 1677, despertando a curiosidade do povo da terra que nunca tinha visto uma freira antes, até conseguirem receber as primeiras donzelas e concluir a construção do convento, o que só aconteceu em 1726.