Angustura, MG, Br

Angustura, MG, Br

Contribuição de

Jacintho Cintra

Há 169 anos, um presente do passado

A Vila de Angustura, localizada a sete quilômetros da Rodovia BR-116 (Rio - Bahia), à altura do km 800, é a sede do único distrito de Além Paraíba-MG.

As origens de Angustura remontam aos primórdios do devassamento da Zona da Mata mineira.

Durante o Ciclo do Ouro, a região, outrora habitada pelos indígenas puris, cropós e croatos, cujos vestígios ainda podem ser encontrados em algumas fazendas, era usada por contrabandistas para se evitar a fiscalização dos Registros (Postos Fiscais) existentes na estrada oficial - o Caminho Novo.

Em razão da densa floresta e da segurança tributária imposta pela Coroa Portuguesa esta parte da Mata Mineira e da vizinha Serra Fluminense eram chamadas Áreas Proibidas.

Nesse contexto surgiu o primitivo Arraial de Madre Dios do Angu, atual Angustura, a partir de um pouso de tropeiros que trilhavam as margens de um rio na região.

Diz a crônica oral que uma das mulas de uma tropa, carregada com bruacas de fubá, caiu naquele rio que não tinha nome. Ora, fubá com água é igual a angu – daí o nome que foi dado ao rio: Rio Angu.

No início do século XIX começaram a ser distribuídas sesmarias aos primeiros colonizadores desses vastos sertões.

Em 27 de março de 1841, o Curato pertencia à Vila de São Manuel do Rio da Pomba e Peixe (atual Rio Pomba-MG) e foi desmembrado da Paróquia de São José do Parahyba, sendo elevado à categoria de Distrito de Paz, pela Lei Provincial nº 198, com o nome de Madre de Deus do Angu.

E foi incorporado ao município da Vila de São João Nepomuceno-MG em abril desse mesmo ano.

A Freguesia foi criada no dia 6 de julho de 1857.

Em 18 de outubro de 1883, seu nome foi alterado para Madre de Deus de Angustura, reduzido posteriormente para Angustura.

Com o crescimento da cafeicultura, através do Vale do Rio Paraíba do Sul, Angustura projetou-se como grande produtora e teve o seu apogeu entre o final do século XIX e princípios do séc. XX.

Os ricos fazendeiros da época erigiram a atual Igreja Matriz de N. Sra. Madre de Deus, datada de 1886, imponente, majestosa e artisticamente decorada por artífices contratados na Corte – Rio de Janeiro.

À sua volta, ergueram belos solares.

O templo supera em beleza e tamanho muitos outros da região e, com o casario de seu entorno, integra um cenário harmonioso, emoldurado pelas montanhas e pelo verde que caracterizam a silhueta alterosa da topografia mineira.

Em suas fazendas viveram inúmeros cativos e, após a Abolição da Escravatura, muitos imigrantes de várias etnias foram atraídos para o trabalho nas lavouras de café – principalmente italianos -, mesclando suas múltiplas culturas.

Entre meados das décadas de 1850 e 1860, Angustura pertenceu ao município de Leopoldina.

Em 'Minhas Recordações', Francisco de Paula Ferreira de Rezende - ex-deputado provincial, fazendeiro, escritor memorialista, depois Ministro do STF, que nessa época advogava em Leopoldina – afirma que Angustura sobressaía pelo requinte de suas pujantes e luxuosas fazendas – "e como os habitantes de Angustura e S. José se conservaram sempre em relações muito íntimas e constantes com a Corte; daqui resultou que a sua civilização e riqueza era muito superior à do resto da Mata, havendo nas grandes e ricas fazendas que ali existiam, muito maior luxo e sobretudo muito maior conforto".

Em 1865, Angustura destacou-se como uma das localidades mineiras que mais recrutaram e enviaram combatentes, 'voluntários', para a Guerra do Paraguai – vinte e nove, segundo a ata que registrou a ocorrência, redigida pelo aludido Ferreira de Rezende.

Diz-nos a tradição local que um deles teria salvo, numa batalha, a vida do então Marquês – depois, Duque – de Caxias, comandante das tropas imperiais brasileiras.

A criação da Estrada de Ferro da Leopoldina, em 1874, não contemplou a sede do Distrito de Angustura.

Posteriormente, a abertura da primitiva rodovia Rio-Bahia, na década de 1930, também preteriu a Vila, sede de Angustura.

Com o declínio do café e com o êxodo rural iniciado com o processo de industrialização do país ocorreu o seu esvaziamento populacional.

Tais fatos se penalizaram o seu crescimento, paradoxalmente, também contribuíram para o resguardo de parte de seu conjunto arquitetônico original, hoje tombado – apesar de não conservado - pela municipalidade.

Em 1884, José Joaquim Álvares dos Santos Silva, o Barão de São Geraldo, cafeicultor e Diretor da referida ferrovia, criou, em companhia de setenta dos maiores produtores locais, o Club da Lavoura de Angustura, entidade que tinha como principais objetivos a defesa dos interesses de seus sócios, o aprimoramento dos métodos produtivos, a padronização dos valores despendidos com a mão de obra remunerada e a recepção e alocação dos imigrantes.

O projeto das casas para residência destes adventícios serviu como modelo usado pela Inspetoria de Imigração de Minas Gerais.

Entre 1901 e 1903, quando o município de São José d'Além Parahyba abrangia também os atuais territórios de Volta Grande, Pirapetinga, Estrela Dalva e Santo Antonio do Aventureiro, Angustura sediou o município, em face das obras de reforma do prédio da Câmara Municipal, na cidade; e também porque a maioria dos vereadores de então residiam em suas fazendas, pertencentes ao distrito angusturense e próximas à Vila.

Já no século XX, em meados da década de 1960, Angustura cogitou emancipar-se, sendo formada uma Comissão para viabilizar o pleito; não realizando, contudo, o sonhado desejo.

Vários integrantes de sua aristocracia cafeeira se notabilizaram na vida pública do Município, da Província, do Império e da República.

Em Angustura, igualmente tombado pelo Patrimônio Histórico municipal, encontra-se o Mausoléu do Primeiro Comandante Geral da Polícia Militar de Minas Gerais, Cel. Francisco de Assis Manso da Costa Reis.

O Cel. Assis era filho do Capitão Valeriano Manso da Costa Reis, colega de Regimento de TIRADENTES - por quem foi citado nos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira - e sua mãe era D. Ana Ricardina Marcelina de Seixas, irmã de Maria Dorothéa Joaquina de Seixas - a Marília de Dirceu, musa e noiva do poeta inconfidente Thomaz Antonio Gonzaga.

Quem também merece destaque é o Deputado Antônio Romualdo Monteiro Manso, celebrizado por ter sido o primeiro político do Império que se negou a prestar juramento de fidelidade a D. Pedro II – motivo que gerou a alteração do Regimento Interno da Câmara.

Em razão de suas convicções antimonarquistas Monteiro Manso conquistou a admiração de Silva Jardim, o Propagandista da República, que visitou Angustura, onde discursou e sofreu um atentado em 14 de março de 1889.

Em Angustura faleceu e está sepultado o Senador Estadual Agostinho Cezário de Figueiredo Côrtes - que dá nome à vizinha cidade de Senador Côrtes-MG - avô do Deputado Geraldo de Menezes Côrtes que, durante a gestão do Presidente Café Filho, foi Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal.

Menezes Côrtes foi preso por opor-se à deposição do Presidente Carlos Luz, durante a 'quartelada', de novembro de 1955, comandada pelo Marechal Henrique Lott.

São também angusturenses:

▪a Baronesa do Bonfim, Maria José Villas Boas de Siqueira Mesquita, fundadora e ativista de entidades feministas e filantrópicas;

▪o Deputado Provincial Francisco Cezário de Figueiredo Côrtes;

▪o Desembargador Francisco de Castro Rodrigues Campos, pai do Governador mineiro e Ministro da Justiça Milton Campos;

▪o Dr. Fausto Figueira Soares Alvim, ex-Prefeito de Araxá-MG, Presidente do IAPC, signatário do histórico Manifesto dos Mineiros contra o Governo Vargas e escultor;

▪o Jurista, Professor, Magistrado, Promotor e Ministro do STF Nelson Hungria Hoffbauer;

▪a laureada escritora e jornalista Cleonice Rainho, mãe do ex-Deputado mineiro Fernando Rainho;

▪o Deputado Estadual fluminense, José Miguel, nascido na Fazenda Bom Jardim, autor da Lei que criou o monumento a Zumbi, no Rio;

▪a Profª. Mirthes Wenzel, primeira Secretária de Educação do Estado do Rio de Janeiro após sua fusão com o extinto Estado da Guanabara; e,

▪Homero Côrtes Domingues, proprietário da grande rede comercial 'Casa Carcacena', fundada em Angustura, e sócio do cineasta Humberto Mauro na Phebo Films.

Em Angustura residiu, por décadas, João Batista Vieira Vidal, um ex-participante da Revolução de 1932, outrora exilado no Uruguai, professor, escritor, historiador, vereador e líder comunitário.

Ali também viveu, nas décadas de 1950/60, outra Marília de Ouro Preto, Marília Guimarães, ex-militante da VPR - Vanguarda Popular Revolucionária, exilada em Cuba por mais de 15 anos, escritora - autora de Nesta Terra, Nesse Instante e Nuestros Años em Cuba - e Presidente do Comitê da Humanidade do Rio.

Angustura inspirou um poema de Bernardo Guimarães (também autor de A Escrava Isaura e O Garimpeiro), e tem a letra de seu hino escrita pelo compositor Carvalhinho, que também escreveu Madureira chorou e Quem sabe, sabe. Em meados da década de 1970. Angustura serviu como locação para o filme A Noiva da Cidade, do já citado Humberto Mauro, estrelado por Elke Maravilha, Jorge Gomes, Zé Rodrix e Grande Otelo, dirigido por Alex Viany, musicado por Chico Buarque de Holanda e Francis Hime. E há quem diga que o famoso samba Coisinha do Pai (cuja gravação foi enviada ao planeta Marte, em sonda espacial, pela NASA), de autoria do compositor Jorge Aragão, teria sido criado em Angustura, em fins da década de 1970, na casa de veraneio de um dos filhos de Carvalhinho, acostumado a hospedar Aragão e demais integrantes do então iniciante conjunto musical Grupo Fundo de Quintal.

Mais recentemente, Angustura centralizou, na região, por determinação do Papa João Paulo II, as comemorações do Jubileu do Ano 2000, atraindo milhares de peregrinos católicos. Nessa ocasião foi inaugurado o Pórtico comemorativo da efeméride, defronte à Matriz. Angustura sediou, em 31 de março de 2006, uma histórica Reunião Oficial da Assembléia Legislativa de Minas Gerais - através da realização de Audiência Pública da Comissão de Turismo, Indústria, Comércio e Cooperativismo; fato até então inédito na Sede de um Distrito mineiro e em toda a longa história daquela Casa Legislativa.

Hoje, Angustura enfrenta muitas dificuldades. Porém, mesmo fragilizada, depois de ter perdido boa parte de seu território e de seu prestigio político, além de ver sua economia rural degradada e seu casario ameaçado, Angustura ainda encontra forças para tentar manter os pilares de sua identidade. E torna-se referência regional por seu esforço em preservar e promover a sua rica memória cultural e histórica.

Alguns significados da palavra Angustura - Para os dicionários e as enciclopédias a palavra Angustura (ou Angostura) significa: ▪Passagem estreita entre montanhas; ▪Lugar apertado no rio; ▪Desfiladeiro; Garganta; Boqueirão. Outras definições também podem ser encontradas: ▪Planta medicinal da qual se extraem substâncias tônicas e febrífugas; ▪Licor usado para mistura em coquetéis – também grafada como Angostura; ▪Batalha ou Rendição ocorrida durante a Guerra do Paraguai – também grafada como Angostura; ▪Arbusto que fornece óleo essencial para indústria de perfumaria; ▪Árvore de cuja casca é extraída substância venenosa. Contudo, nós angusturenses - de nascimento, de raízes ou de coração - podemos dizer, qual Domingos Estevam Rezende, que ANGUSTURA é um presente do passado.

©Plinio Fajardo Alvim - Leopoldinense. Pesquisador da história regional. Diretor Secretário do Instituto CULTURAR.